terça-feira, 10 de setembro de 2013

A imagem das brasileiras lá fora


Deu na Veja desta semana: “A HBO Latin America anunciou a encomenda da segunda temporada de ‘O Negócio’. As filmagens dos novos episódios terão início neste ano. A previsão de estreia é para 2014. Criada por Luca Paiva Mello e Rodrigo Castilho, a série acompanha a vida de três prostitutas de luxo que decidem aplicar estratégias de marketingpara aumentar a clientela. Ao todo, a HBO Latin America já produziu oito séries brasileiras. ‘O Negócio’ é a quinta que consegue chegar na segunda temporada.”

Não é de hoje que o conteúdo “cultural” exportado pelo Brasil se resume quase que exclusivamente a samba, futebol e mulheres “calientes”. Pude constatar isso pessoalmente numa recente viagem que fiz ao Chile, com um grupo de amigos teólogos. Logo que desembarcamos em Santiago, uma van foi nos buscar no aeroporto. Assim que viu aquele grupo de 14 homens, o motorista foi logo perguntando: “Ustedes gustan dechicas?” Se fazendo de desentendido, um dos meus colegas respondeu: “Sim, gostamos dexícaras. De chá.” Mas o chileno insistiu com um sorriso de canto de boca: “Si, pero xícaras com piernas.” Aí tivemos que explicar que somos todos casados, e muito bem casados. E mudamos o assunto.

No dia seguinte, acompanhado por dois amigos, regressávamos de um passeio numshopping, quando o taxista me perguntou (eu estava no banco do caroneiro): “Como estão as garotas?” Ingenuamente, pensei: “Como ele sabe que sou casado e tenho duas filhas?” E perguntei: “Minha esposa?” Ele respondeu: “Não, as garotas que sambam.” Ele se referia às famosas dançarinas brasileiras das escolas de samba. Outra decepção. Pensei: “Será que esse pessoal não tem outras perguntas para fazer aos brasileiros? É tudo culpa das nossas novelas, dos nossos seriados, das nossas propagandas.” E me lembrei de que, no voo entre São Paulo e Santiago, haviam sido exibidos alguns vídeos sobre o Brasil e o Chile. Um, o do Brasil, mostrava imagens de favelas, do carnaval e de praias. O do Chile trazia cenas de pontos turísticos bem mais “culturais” e da Cordilheira. Assim, é difícil lutar contra o estereótipo. Mas tentei.

Perguntei ao taxista se o Chile tinha apenas uma cultura, de ponta a ponta. Ele, obviamente, me disse que não. Então expliquei-lhe que o Brasil, muito maior que o país dele, também é um mosaico cultural e que nem todos gostam de samba e carnaval (confira). Quando ele me disse que queria muito conhecer o Rio de Janeiro (por causa das praias e das mulheres), disse-lhe que o Rio, de fato, é lindo, digno de ser conhecido, mas que existem muitos outros lugares no Brasil que vale a pena visitar, não necessariamente pelos motivos apresentados por ele.

Depois de falar um pouco mais sobre meu país, procurei conduzir a conversa para temas mais edificantes e meus amigos e eu lhe falamos sobre a Bíblia e suas promessas. Pouco antes do fim da viagem, anotei o e-mail dele e prometi enviar o e-book La Gran Esperanza(o que já fiz).

Uma de minhas irmãs, a Michela, em viagem aos Estados Unidos, também passou por experiências semelhantes. É ela quem conta:

“Entrei em uma loja na Times Square, em Nova York, e o atendente puxou assunto. Perguntou primeiro de onde eu era. Respondi que do Brasil e ele começou a falar bobagens. Primeiro disse que as brasileiras são bonitas. Depois perguntou se eu queria casar com ele. Eu disse ‘não’ e ele voltou a perguntar: ‘Não? Você não gostou de mim?’ Desconversei, mostrei minha aliança no dedo e saí da loja.”

“Em outra oportunidade”, continua ela, “eu estava em outra loja em Nova York olhando botas e uma senhora se sentou ao meu lado e começamos a conversar. Ela também perguntou de onde eu era e ao saber que do Brasil, começou a falar: ‘Ah, o Brasil, Rio, carnaval!’ Então falei a ela que o Brasil não é o Rio e que nem todos gostam de carnaval. Falei que no Sul, onde moro, é bem diferente do Rio e que muitos que conheço, incluindo aí eu mesma, não gostam de carnaval. Então ela me respondeu: ‘Você está certa. Os americanos são muito ignorantes. Pensam que todas as mulheres brasileiras são fáceis, que somente existe Rio e carnaval no Brasil.’”

Infelizmente, grande parcela de culpa por essa imagem negativa que temos lá fora é nossa. É das nossas produções televisivas e cinematográficas. É dos nossos publicitários e até dos nossos governantes. Sei que é como uma gotinha no incêndio, mas, de minha parte (e minha irmã concorda com isso), sempre que tiver a oportunidade, tentarei mostrar que o Brasil é mais do que futebol, carnaval e mulheres “fáceis”. Há por aqui pessoas que têm outros valores. Há por aqui pessoas que vivem por princípios e que desejam ser respeitadas por isso.

Michelson Borges

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