quinta-feira, 11 de julho de 2013

O homem que matou bem mais do que Hitler


Temos em nosso modelo mental que uma pessoa capaz de causar mais de um milhão de mortes não deve ser um sujeito bom. Mao, Stalin e Hitler se encaixam nesse perfil do vilão absoluto, assim como outros carinhas complicados com muito poder nas mãos.
Mas, apesar de ter matado bem mais, o reconhecido filantropo James Buchanan Duke não tem nada a ver com esse perfil.

Nada a ver mesmo, exceto que a busca por dólares fez nascer uma indústria que mata 5 milhões de pessoas todos os anos, segundo a Organização Mundial da Saúde. Se não fosse ele, outra pessoa certamente teria iniciado aquilo que poderia ser reconhecido como o mal do século XX. E teria ficado podre de rico em seu lugar.


Tudo começou em 1885, quando Duke mandou construir a primeira máquina de processamento de cigarros. Antes disso, em sua “fábrica”, um operário produzia artesanalmente 200 cigarros por dia enrolando-os à mão. Esta máquina, a primeira de seu tipo, produzia 120 mil cigarros no mesmo período.

Considerando apenas o que se consome de cigarros em um nervoso jogo da Libertadores, até que não parece tanto, mas na ocasião isso era o equivalente a um quinto do consumo norte-americano. Até então, as únicas opções para usar tabaco eram usar um cachimbo ou charuto ou enrolar o próprio fumo. Tudo muito caro e pouco prático se comparado com os cigarros fabricados em escala industrial.

Era tanto cigarro que o problema de Duke agora não era mais produzi-los, mas vender toda essa produção. Pelo preço que fosse.



Até de graça ele distribuía cigarros para promover o produto. Mas não em qualquer lugar: ele sempre os distribuía em desfiles de moda, estreias de peças teatrais e outros locais de alto status. A ideia era que as estrelas fossem fotografadas fumando, aumentando assim o status do cigarro.
Ou seja, além de matar milhões de pessoas todos os anos, Duke também inventou a disciplina favorita dos políticos brasileiros, o marketing, muito antes da Coca-Cola e da GM.

Milhões de mortos

Todo mundo sabe o mal que o cigarro faz. Hoje em dia. Mas Duke morreu numa época em que médicos até mesmo recomendavam o consumo do tabaco. Para ele, estava fazendo do mundo um lugar melhor. Era tão bem intencionado que fez um doação gigantesca para o Trinity College, nos Estados Unidos, que, honrado, mudou o nome para Duke University.
Ou seja, Duke também foi o precursor da moda do Naming Rights, algo que só pegaria fôlego em 1990.
Assim como Henry Ford, cujos automóveis baratos deram mobilidade (e propensão a morrer em acidentes) a bilhões de pessoas, Duke permitiu que o consumo do tabaco fosse massificado. Depois dele, restaurantes, cinemas e outros lugares públicos passaram a aceitar fumantes. E mais: apenas fumantes do cigarro produzido em massa, porque faziam menos fumaça que os cachimbos ou palheiros. A facilidade de fumar cigarros, aliada ao hábito de tragar, fez explodir os casos de câncer de pulmão.

Estes dados do Ministério da Saúde mostram como deu certo o esforço de Duke:

“(…) o fumo é uma das principais causas de morte evitável, hoje, no planeta.
Um terço da população mundial adulta – cerca de 1,3 bilhão de pessoas – fuma: aproximadamente 47% da população masculina e 12% da população feminina fazem uso de produtos derivados do tabaco. Nos países em desenvolvimento, os fumantes somam 48% dos homens e 7% das mulheres, enquanto nos desenvolvidos, a participação do sexo feminino mais do que triplica, num total de 42% de homens e 24% de mulheres fumantes.
No Brasil, pesquisa realizada recentemente pelo Ministério da Saúde, por meio do Instituto Nacional de Câncer (Inca), indica que 18,8% da população brasileira é fumante (22,7% dos homens e 16% das mulheres).”

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